Pequeno proprietário rural diz que desmata a Amazônia para poder sobreviver

28/08/2019

“Nós desmatamos para sobreviver”, diz o agricultor Aurelio Andrade em um ponto remoto da Floresta Amazônica, enquanto as chamas consomem a propriedade de seu vizinho. A 120 quilômetros de Porto Velho, capital de Rondônia, este homem de estatura baixa e compleição robusta vive a sua própria batalha, alheio à crise política e diplomática gerada pelo avanço das chamas na maior floresta tropical do mundo.

Os incêndios ganharam tamanha proporção que a fumaça já tem alterado a rotina de Porto Velho. No Hospital Infantil Cosme e Damião, famílias fazem fila para receber atendimento médico em razão dos problemas de saúde causados pela fumaça.

Com poucos hectares quando comparado a grandes fazendas, o terreno de Andrade termina quase na fronteira que separa a floresta em decadência da crescente área desmatada, cujas cores variam do marrom ao vermelho.

O lugar era tido como “terra de ninguém” quando Andrade o ocupou há 19 anos ao lado da mulher, que costuma andar quatro horas só para chegar ao povoado mais próximo. O fazendeiro espera que as autoridades reconheçam a terra como propriedade dele. A grilagem —  a apropriação indevida de terras públicas —  é uma fonte permanente de conflitos entre comunidades indígenas, grileiros e o poder público.

O lugar em que Andrade vive não tem qualquer comunicação ou vigilância. A lei é aquela imposta pelos grandes proprietários, madeireiros e mineradores ilegais, que saqueiam a floresta Amazônica.

“Aqui, não temos apoio do governo federal nem de ninguém. Apenas de Deus. Por isso, cortamos árvores para plantar, sobreviver e alimentar as nossas criações”, explica ele.

Composta de uma casa precária, a propriedade dele foi sendo desmatada ao longo dos anos e, no espaço, ele cria vacas, galinhas, porcos, patos e cavalos. Os ambientalistas acusam não só grandes proprietários, mas também pequenos agricultores , como Andrade, de se valerem da falta de controle do Estado para ampliar suas terras.

“É apenas cortar algumas árvores, esperar três meses e tirar as sementes. Se você escolher uma área deserta, é preciso limpar, queimar e fazer uma casa para viver com os filhos, porque não dá para morar no buraco de uma árvore, como se fosse uma pássaro, não é?”, diz ele, às gargalhadas.

Não há qualquer menção ao fato de que os incêndios supostamente controlados da temporada de seca saem do controle e se transformam nas chamas descomunais que dominam há vários dias o noticiário de todo o mundo.

O Globo